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Artigos
BUROCRACIA SEM ALMA
Léo da Silva Alves
Na máquina administrativa, há uma tendência natural de se diluírem as responsabilidades. Cada um procura descarregar sobre o outro a culpa
pelos erros ou falta de resultados. A burocracia infernal que alimenta os
procedimentos administrativos contribui substancialmente para isso. Um
expediente, afinal, passa por v
árias mãos. É de responsabilidade de muitos. E, por conseqüência de ninguém.
Nesse contexto, de lentidão e de descompromisso, o agente público que tem personalidade, que assume responsabilidade e que cobra a parcela
devida de todos os que o cercam, torna-se, numa reparti
ção, um elemento estranho, revolucionário, incompreendido.
É interessante constatar que esse quadro não é exclusivo da Administração Pública brasileira e nem um fenômeno dos tempos atuais. Rudolf Von Ihering, no seu clássico “A Luta pelo Direito”, nos oferece um texto que convida à reflexão:
“...a sorte daqueles que têm a coragem de efetivar a aplicação da lei torna-se um verdadeira martírio; o enérgico sentimento do direito, que lhe não permite ceder o lugar ao arbítrio, transforma-se para eles em verdadeira maldição.”
“Abandonados de todos os que eram seus aliados naturais, ficam isolados em presença da ilegalidade secundada pela apatia e covardia gerais; e quando, à custa de rudes sacrifícios, têm conseguido ao menos a satisfação de haverem sido fiéis a si próprios, não recolhem regularmente, em vez de reconhecimento, mais do que zombarias e
desprezo.
”
Entenda-se que a tendência dos serviços públicos é cair na rotina. “Esse é um dos grandes males da burocracia”, escreve Mário Gonçalves Viana, autor português, no seu “Ética Geral e Profissional”, editado pela Livraria Figueirinhas, da cidade do Porto. O professor Viana
escreve:
“Cada um entende que é ao outro que compete fazer mais do que ele; cada um se julga incompreendido e
mal pago; cada um se julga um isolado, com direito de fazer somente o que lhe
convier.
”
A apatia de agentes públicos é, então, conseqüência da reunião desses fatores. Dentro da repartição pública, o homem tende a se desumanizar. Fica insensível. Opera como máquina. Tem gestos mecânicos. Desliga-se da realidade e vai viver num mundo diferente, abstrato,
artificial, de requerimentos, memorandos, of
ícios, processos, organogramas, gráficos, despachos. Isso é essencialmente burocracia. E a burocracia não tem alma.
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Fevereiro, 2008
Léo da Silva Alves é autor de mais de 30 obras, professor de Direito Administrativo e conferencista
com trabalho integrado a juristas da Europa. (leoalves@terra.com.br).
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Direito Disciplinar e Processo Administrativo
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